Elevador
"Hoje fiquei preso no elevador. Nunca tinha ficado preso no elevador. É uma experiência, digamos... interessante, quase surreal. O pior do fato de entrar no elevador não é problema de ficar espremido com mais três pessoas que você nunca viu mais gordas num espaço de um metro quadrado. O sentimento claustrofóbico nada tem a ver. O problema maior é o que fazer naqueles minutos em que você é obrigado pelo destino a conviver com aquelas figuras bizarras. Sim, porque todos são bizarros a dois palmos de distância. A experiência “elevadorística”, digamos assim, são os dois minutos mais longos da existência. O único pensamento que vem à tona é: Meu Deus, quando é que chega o meu andar!!! Não sei se já perceberam mais ninguém olha nos olhos de ninguém dentro de um elevador. Ou olhamos pra cima ou pra baixo, nunca pra frente. Encarar o outro pode ser muito perigoso e eu já explico porquê. Estamos sempre na expectativa do que poderá acontecer – porque algo vai acontecer, tenham certeza. Por vezes alguém mais corajoso arrisca um olhar de soslaio. Palavra difícil essa, né? Soslaio. De lado, quase disfarçando. O que será que ele pretende? De repente um cheiro... Você olha de soslaio também. Não foi você, lógico. Foram os outros três. Mas eles pensam o mesmo de você. E o culpado jamais irá se entregar. Você vira vítima e cúmplice do crime hediondo. E essa é a hora em que a luz cai e o meio de transporte que nunca faz curvas pára. A pior hora possível. Na penumbra os soslaios continuam mais desconfiados do que nunca e você sente que o ar começa a ficar rarefeito ainda mais pelo incidente acontecido. Você toca a campainha de emergência. Uma, duas, três vezes. O anão careca começa a transpirar e exalar um segundo cheiro ao ambiente. Ninguém diz nada. Não é preciso. O senhor de óculos raiban diz que o porteiro virá, pra mantermos a calma. A senhora gorda olha com ódio pra você te julgando o pior dos homens. Você mostra suas mãos pra ela, não estão amarelas. Ela não vê. O soslaio não deixa. Você olha pros números em cima da porta. Dois estão acesos, o que significa que você está no meio de dois andares. O porteiro caolho abre com um pé de cabra a porta, mas ninguém quer se arriscar a sair que o desgraçado pode voltar a andar justamente na hora da passagem. O porteiro caolho entra pra mostrar que não tem risco. Agora já são cinco no recinto. E logo se transforma. Agora é um dos nossos. Desconfiado, cabreiro. Sem olhar de soslaio pois o olho bom não deixa. O constrangimento é geral. O silêncio idem. Dali a um quarto de hora a luz volta e você sai do cubículo sem saber que diabos foi fazer ali, mas certo que voltará usar as escadas, que o médico já havia te recomendado faz tempo."
Encontrei isso em um blog que com certeza deve estar abandonado pelo dono, o blog e Filosofia de Botequim onde e fala sobre convivência de uma forma bem excêntrica.